Translate

28/09/2016

Somos marcas


Foto



Quando eu estava na segunda série e ortografia não era lá meu forte, eu estudava com uma menina muito simpática. Ela sorria para todos os coleguinhas e tinha uma mochila legal. Ela era inteligente o suficiente para entender a matéria antes das outras crianças e fazia as tarefas com tanta rapidez que até mesmo a professora ficava pasma. Eu a admirava, todos a admiravam. Uma dia eu a vi escrevendo seu próprio nome  em um trabalhinho. o "C" que era sua inicial era tão bonito, tão redondo que muitos poderiam desconfiar da autoria. Desde aquele momento comecei a fazer letra "C" o mais parecido possível. O ano letivo terminou e ela mudou de colégio. Nunca mais a vi e não sei se seria capaz de reconhece-lá atualmente. A menos que o "C" continue o mesmo.

Conheci um cara quando eu tinha mais ou menos uns 16 anos. Ela ria da minha risada e fazia piadinhas muito ruins, que nem ele conseguia achar graça. Sempre que íamos ao cinema pedíamos a maior pipoca e os maiores copos de refrigerantes (horríveis e sem gás). Nós tínhamos mania de ver qualquer filme que estivesse em cartaz e depois avaliávamos e o colocávamos em uma lista de favoritos do ano, dos melhores para os piores. Era muito difícil decidirmos qual era o pior, sinceramente. Com certeza a classificação era muito mais divertida. Terminamos no ano seguinte. Até hoje sou viciada em cinema, avalio filmes e fico pensando em quais argumentos ele usaria para colocar os filmes em alguma colocação.


Pouco antes de entrar para a faculdade, encontrei com um cara na festa junina do colégio da minha prima mais nova. Foi ver a irmã dançar na quadrilha e como eu, estava muito mais interessado na barraquinha de comidas típicas. Era impossível decidir o que parecia melhor: a canjica, a torta de maçã ou os olhos calmos dele.  Amor a primeira barraquinha? Não sei. Sempre que nos encontrávamos ele me apresentava uma música diferente. Eu nunca teria imaginado a quantidade de músicas MPB maravilhosas que existem e jamais teria imaginado que eu iria gostar tanto de MPB na vida. Eu achava que era a companhia dele que fazia tudo parecer tão incrível. Até que os encontros foram ficando cada vez mais raros e finalmente, extintos. Nossa paixão terminou. A minha por MPB, não.

Me formei há pouco tempo e fui trabalhar em um prédio em que as pessoas eram tão preguiçosas, que mesmo as que tinham suas salas no primeiro andar, entravam na fila do elevador. Depois de muitos dias esperando a terceira idade e as pessoas da minha faixa etária (que mais pareciam estar na quinta idade) fazerem várias viagens de elevador na minha frente, comecei a reparar que um senhorzinho sempre passava pela fila dos sedentários (carinhosamente apelidada assim pelo pessoal do meu setor) e subia pelas escadas. Um dia, por curiosidade, resolvi segui-lo só para saber a andar ele se dirigia. Me ferrei bonito. Era o 7°. O meu, o 6°. Depois de alguns dias após a experiência exaustiva, resolvi levar um par de chinelos no carro e encarar a subida via-canelas. Se aquele senhor conseguia, eu também conseguiria. Consegui. Depois do primeiro mês, eu já não me sentia mais tão cansada e conseguia economizar bons 20 minutos, dos quais aproveitava para ler e tomar café antes do dia começar de verdade. Nunca mais usei elevador. Ganho tapinhas do senhor até hoje. Um incentivo por dia.

Somos partes uns dos outros. Mesmo que um dia deixemos de fazer parte do mesmo convívio. Somos marcas. Marcas incapazes de sumirem. São essas marcas que nos fazem, que nos dão personalidade, que nos deixam adquirir cultura. E seriam intransferíveis se não fossem pelas figuras que passam por nossa vida, nossa história. São essas marcas que ficarão quando enfim formos embora para sempre. São elas que nos dirão quem fomos, quem transmitimos ser. Porque a vida é isso, um livro a ser marcado.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe um comentário: