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20/09/2016

Ela


Oh barulhinho chato era aquele do gato da vizinha arranhando a porta quando queria sair. Todo santo dia, no mesmo horário (provavelmente às 6h ou 7h), ele estava lá. E era nesse mesmo horário em que ela também estava, sempre linda, mesmo parecendo que estava morta. Dormia de uma forma em que poderia estar tendo ataque terrorista na nossa varanda, que ela não acordaria. E sempre que o filho da mãe, do Oswaldo (sim, o gato!) me acordava e eu pensava em questionar o porquê dessa desgraça na minha vida, eu a olhava e toda a minha vida parecia valer a pena.


  Ela tinha um sorriso estreito, calmo, com dentes pequenos e quadradinhos iguais aos de criança. Ela tinha grandes olhos cor de mel, tão doces quando ela. Ela sempre acordava se arrastando para o banho. Nunca vi mais preguiçosa. Acordava sempre com o cabelo tô embolado. Resultado de uma noite inteira virando de dez em dez minutos na cama, igual um frango assado.
A gente falava pouco no café. Ela passava geleia na torrada e olhava pra mim com cara de "tomara que você não queira outra coisa, porque eu já estou com a geleia na mão" e eu sempre comia a geleia. Não que eu goste tanto assim de geleia, mas gostava o suficiente dela, para comer geleia todos os dias e evitar discussão de quem pegaria o requeijão na geladeira. Até porque eu perderia. Eu sempre perdia tudo para ela. Eu nunca estava certo ou ela nunca estava errada.


  Ela vestia todos os dias umas oito blusas diferentes e combinava pelo menos com umas quatro saias e umas cinco calças. Sempre me perguntava qual roupa ficava melhor no corpo dela, mas era impossível responder, ela ficaria bem até vestida de Barney, o dinossauro. Ela também tinha uma coleção um tanto exagerada de batons, acho que todos os dias ela usava um diferente. E a cada sorriso colorido, eu me apaixonava mais.


No caminho para o trabalho ela gostava de ligar o rádio do carro e cantava qualquer música que estivesse tocando, inclusive as que ela não sabia a letra ou nunca havia escutado antes. Cantarolava de uma forma tão engraçada que as pessoas no pedágio sempre olhavam, talvez por curiosidade de saber se aquele barulho era algum cano quebrado do carro ou um choro de neném. Quando eu a deixava na porta do prédio, ela sorria e sempre dizia "hoje você vai ter um dia maravilhoso" e como não ter depois de ouvir uma coisa dessas? Eu saía do carro e geralmente reparava que estava com meias diferentes. Ela fazia de propósito, embolada pares de meias diferentes na minha gaveta. Eu já sabia, mas não queria estragar a brincadeira dela.


  A gente voltava pra casa e cozinhava qualquer coisa que desse para comer. Ela fazia o melhor frango assado na cerveja com batatas que já comi. Na verdade nós inventamos esse prato, mas tenho certeza que mesmo que outras pessoas o fizessem, o dela ainda seria o melhor.
A camiseta antiga de uma banda que eu nunca lembro o nome, não saia do corpo dela. Deslizava pela pele morena e macia que tinha um cheiro próprio. Nós víamos qualquer coisa que estivesse passando na Discovery, meu canal favorito. Acabávamos nos perguntando o que leva alguém a passar a vida estudando as espécies de grilos e outros insetos verdes. Quando eu pensava em uma conclusão, ela já estava dormindo, com as mãos embaixo do rosto, feito um anjinho. Quem via assim nem imagina a quantidade de palavrões por minuto que ela era capaz de xingar assistindo futebol.


  Ela era um doce, uma gota de limão. Era o sol nos dias frios de outono, era o ar fresco nas noites abafadas de verão no RJ. Ela era minha trilha sonora, mesmo sendo uma taquara rachada. Ela era minha amiga, minha namorada, minha esposa, minha dupla sertaneja nas noites em barzinhos capengas. Ela era um grude que eu nunca quis desgrudar. Ela era isso tudo, mas nunca mais será tão radiante. Seu único defeito, era não ser imortal.


  Ainda uso meias de pares diferentes e sorrio para a foto dela no espelho do carro. Também colei uma no cano de descarga. Tenho certeza que ela acharia engraçado.





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